quinta-feira, 24 de maio de 2012

Recomendação de gesso agrícola para a cultura do café

A maioria dos solos utilizados para o plantio do café no Brasil apresenta baixos teores de cálcio trocável e elevados teores de alumínio, especialmente em camadas mais profundas. Dessa forma, as raízes do cafeeiro tendem a ficar concentradas na superfície do solo, o que torna as plantas extremamente suscetíveis a veranicos, além de reduzir a absorção de nutrientes que estão distribuídos em um maior volume de solo. Mas porque as raízes se concentram na superfície?

O efeito do calcário, em geral, não é observado em camadas mais profundas do solo, uma vez que o ânion acompanhante carbonato (CO32-) imprime reduzida mobilidade ao cálcio no perfil do solo. É por isso que, ao se recomendar a calagem em cobertura, deve-se fazer a correção para 7 cm de profundidade, para que não ocorra uma supercalegem. Assim, grande parte do cálcio fica restrita às camadas superficiais do solo.

O cálcio, por sua vez, é um elemento essencial para o crescimento vegetal, apresentando mobilidade intermediária no solo e pouquíssima, ou nenhuma, mobilidade nas plantas. Dessa forma, o cálcio enviado das raízes para as folhas do café não é retranslocado para as raízes novamente, como acontece com o fósforo. Pode-se, então, fazer uma afirmativa de fácil entendimento: "as raízes do cafeeiro crescem em busca de cálcio, e, onde não houver cálcio, praticamente não haverá raízes de café".

Além disso, o alumínio (Al3+) presente em camadas inferiores, não corrigidas pelo calcário, é tóxico para as plantas em concentrações elevadas. Portanto, haverá pouco crescimento radicular nessas camadas, devido aos baixos teores de cálcio e à possível toxidez de alumínio.

Para contornar esse problema, que muitas vezes não fica explícito, mas que reduz a produção das lavouras, deve-se utilizar o gesso. O gesso agrícola é composto basicamente por sulfato de cálcio (CaSO4.2H2O), contendo, aproximadamente, 32,6 % de CaO e 18,7 % de S, sendo fonte, além de cálcio, de enxofre. É um sal neutro e dissocia-se, quando em solução, em Ca2+ e SO4-2. Logo, não apresenta receptores de prótons (OH- e HCO3- ), ou seja, não é capaz, a princípio, de neutralizar a acidez do solo, muito menos de elevar a CTC. Dessa forma, é considerado como um condicionador do solo, não um corretivo.

O ânion acompanhante sulfato (SO42-) imprime elevada mobilidade ao cálcio, permitindo que este nutriente chegue a camadas mais profundas do solo. Além disso, o sulfato, oriundo do gesso, se liga ao alumínio do solo, formando o sulfato de alumínio (AlSO4+), que é uma forma menos tóxica para as plantas. O gesso promove, também, outras formas de redução da toxidez de alumínio, como a "auto-calagem" ou a formação de AlF2+, mas essas ocorrem com menor intensidade do que a formação de AlSO4+.

Por fornecer enxofre e cálcio, dar mobilidade ao cálcio até camadas mais profundas do solo e reduzir a toxidez de alumínio em sub-superfície, o gesso é um insumo fundamental para a cultura do café, pois favorece o crescimento e o desenvolvimento radicular. Com isso, as plantas ficam menos sensíveis a períodos de veranico e são capazes de absorver nutrientes presentes em um maior volume de solo.


Aplicação de gesso

O gesso é um importante insumo para a cafeicultura, mas tem seu emprego limitado a situações particulares bem definidas. O uso indiscriminado de gesso nas lavouras pode causar problemas em vez de benefícios e prejuízos em vez de lucros.

A utilização do gesso é prescrita para as três situações de sub-solo listadas a seguir. Se apenas uma delas for satisfeita, deve-se aplicar o gesso.

- Teor de cálcio menor ou igual a 0,4 cmolc/dm3.

- Teor de alumínio maior que 0,5 cmolc/dm3.

- Saturação por alumínio (m) maior que 30 %.

Essas são situações a serem determinadas no sub-solo, por meio de análises químicas. Portanto, a amostragem de solo, para esse caso, deve ser realizada na camada de 20 - 40 cm de profundidade, ou mais profundas, não na de 0 - 20 cm. Para verificar a necessidade de aplicação de gesso, os resultados analíticos da camada de 0 - 20 cm não querem dizer muita coisa. Essa decisão só pode ser tomada a partir dos resultados analíticos da camada de 20 - 40 cm.

Concluindo-se pela aplicação do gesso, segundo as três regras citadas, o cálculo da quantidade a ser utilizada é muito simples e baseado no cálculo para a necessidade de calagem (já discutido em artigo anterior). Divide-se em necessidade de gessagem (NG) e quantidade de gesso a ser aplicada (QG).

NG = 0,30 x NC, onde:

NG = Necessidade de gesso, em t/ha.

NC = Necessidade de calcário, em t/ha (calculada para a camada que se deseja corrigir com gesso, não para a camada de 0 - 20 cm. Essa NC é utilizada apenas para o cálculo da NG, não sendo aplicada ao solo).

QG = NG x (SC/100) x (PF/20), onde:

QG = Quantidade de gesso a ser aplicada para corrigir determinada camada de solo, em t/ha.

NG = Necessidade de gesso, em t/ha.

SC = Superfície coberta pelo gesso, em %. (para área total utiliza-se SC = 100 %; para aplicação em faixas utiliza-se SC = 75 %).

PF = Espessura da camada onde o gesso deverá agir, em cm. (para a camada de 20 a 40 cm utiliza-se PF = 20 cm; para a camada de 30 a 60 cm utiliza-se PF = 30 cm).

O gesso pode ser aplicado junto com o calcário, mas é preferível que seja usado após a aplicação deste. Aplica-se a quantidade de calcário calculada para a camada de 0-20 cm e a quantidade de gesso calculada para a camada sub-superficial. O gesso pode ser aplicado em cobertura, sem necessidade de incorporação, pois é muito móvel no solo. Se não houver necessidade de calagem para a camada superficial, pode-se aplicar apenas o gesso, mas esta condição deve ser revista anualmente.

A aplicação de gesso, mal calculada e sem o prévio conhecimento se há necessidade de calagem para a camada superficial, é prejudicial ao equilíbrio químico do solo e à nutrição balanceada do cafeeiro. No entanto, quando bem prescrita e calculada, a aplicação de gesso é fundamental para que sejam alcançadas elevadas produtividades na cafeicultura.


Fonte: André Guarçoni M.
D.Sc. em Solos e Nutrição de Plantas pela Universidade Federal de Viçosa-MG. Pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper)

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